O General

Era uma vez um príncipe que, aclamado pelo povo, retornou ao poder.

O príncipe, comovido, designou como sátrapa um nobre muito próximo ao seu povo — ainda que oriundo de outra satrapia.

O sátrapa, amante das letras e das ciências, solicitou emprestado um guarda-armas de um exército vizinho, e o promoveu a capitão.

O capitão, muito moço, atrapalhou-se em alguns de seus jogos estratégicos, e esse pormenor causou algum mal-estar ao Sátrapa e à sua Dama.

Então, Satrapia erige outro comandante de armas — que se vê tolhido em seus exercícios de comando pela presença incômoda do seu antecessor, que não larga o seu posto.

E agora, a Satrapia não consegue desvencilhar-se do guarda-armas — que, apesar de requisitado de volta pelo seu General, tomou gosto por suas novas honrarias, e faz qualquer negócio para permanecer no comando do exército de faz-de-conta, e pensa que, agora, é General.

Eu pensava que Franz Kafka não havia escrito sobre esse tema: ledo engano.

Não me recordo o título, mas ele escreveu crônica magistral acerca da contratação de exércitos mercenários, para controlar os povos — o povo.

Chega um momento em que os exércitos se tornam um estorvo para os governos — e são deixados à margem, descartados como qualquer objeto, da mesma forma que acontece com as pessoas do povo.

E o povo, que antes era espezinhado pelos exércitos a mando dos príncipes, é quem tinha que lidar com os soldados, agora desprovidos de qualquer humanidade.

Kafka, meu velho, seja bem-vindo ao Tocantins.

O ‘barco’ está fazendo água

Pois é, o ‘barco’ está fazendo água.

O chefe veio com muito entusiasmo, com toda força, e no final sangrou como porco — com o perdão pela metáfora pra lá de grosseira.

E, ao que parece, sai de fininho, pela porta dos fundos — tudo indica que foi o último a saber que dançava, a menos que seja muito duro na queda (eu, no lugar, teria desmoronado).

É a vida.

E para nós, o que fica?

Outro chefe tirado de dentro da cartola, também improvisado, também muito convencido de suas qualidades (segundo o ‘telefone-sem-fio’). Lindo, não?

Que governos. E que governo!

Como criar um chefe?

É simples: basta umas colheradas (muitas!!!) de vaidade, uma boa dose de frescura, e: Voilà!

Taí o CHEFE!

Gostou?

Eu, não.

Estou experimentando este ‘manjar’.

E como diz aquele dito popular, ‘quem nunca comeu mel, quando come se lambuza’.

É inteligentíssimo, fresquíssimo, modestíssimo, e por aí vai.

E tão preocupado com a coisa pública!!!!!

Fluxograma

Como se faz um fluxograma?

Boa pergunta.

Pois é. A Chefe da Repartição requisitou do grupo de que eu participo a elaboração de um.

A ideia é boa: Fazer com que os documentos — processos inclusive — cheguem ao Centro de decisões já com uma sugestão de decisão, em vez de seguirem direto ao centro de decisões, que os repassaria aos setores “para providências”, e às vezes a setores que não teriam como deliberar sobre o problema posto.

Muito bem. Mas e aí: como se elabora um fluxograma?

Boa pergunta!

Virada

Às vezes eu penso se as mudanças são realmente boas coisas, ou se a vida devia ser aquela previsibilidade.

Sério. Me causa uma angústia a possibilidade de mudanças drásticas. A simples possibilidade de mudanças. Os indícios de mudança iminente me dão cólicas.

Tudo bem, eu já ouvi que os chineses têm o mesmo ideograma para descrever ‘crise’ e ‘oportunidade’.

É, eu mesmo já repeti isso.

Sim, eu desejei mudanças no status quo. E desejo-as ainda.

Mas, caramba! Eu estou ansioso! Tenso!

Até onde?

Médicos boicotando laboratórios que teriam manifestado apoio à Presidenta reeleita.

Médicos, também, sugerindo a castração (em massa) química de nordestinos, e de forma mais abrangente, de eleitores e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores.

Cidadãos que, em nome da democracia, pregam a segregação de indivíduos alegadamente inferiores.

Crimes hediondos sendo perpetrados, às claras, sem que ninguém se insurja contra essa degenerescência.

Estamos bem?

Política — mandatos

Finalmente, passaram as eleições.

E tudo voltou ao seu ritmo, certo?

— Errado!

Agora, querem derrubar o governo eleito pelos cidadãos.

A ‘justificativa’?

— Ora, não valeu! Estamos sob uma ditadura (que, paradoxalmente não reprime as manifestações contrárias, por mais agressivas que sejam). Não deu pra perceber?

Sinceramente, não. Como sou lento!


 

Pérolas reacionárias.

Na fila do supermercado.

Ontem, saí para comprar leite para a minha mãe. Leite desnatado.

Aproveitei para comprar mais coisas, e já estava chateado quando enfim cheguei à fila dos caixas.

Como sempre, um zigue-zague para escolher em qual o caixa eu me despacharia. Perdi posição nas três filas não preferenciais disponíveis.

Fazer o quê? Sou assim, disperso.

E o ‘diálogo’ entabulado na fila à esquerda me chamou a atenção.

Um ‘gaúcho’, que antes eu cheguei a pensar se tratar do dono de um restaurante que frequento às vezes, estava discorrendo sobre sua ‘civilidade’.

Ouvi, como todos ouviram, pérolas como: “não tem ninguém que queira trabalhar numa fazenda“; “recebem a bolsa-família, e ficam na vagabundagem“; “mas essa mamata vai acabar loguinho”.

Me deu vontade de prolongar o ‘diálogo‘ com o ‘gaúcho‘, mas como de regra me reprimi.

Ainda assim, as perguntas vieram bem claras: “e o senhor, aceita trabalhar em fazenda? digo, fazer o trabalho pesado de fazenda?” “ah, então o senhor a herdou?” “o senhor está disposto a pagar para os ‘candidatos‘ valor equivalente ao da bolsa-família?”; “topa trabalhar em troca do equivalente à bolsa-família? eu tenho lote pra ser capinado“; “mamata pra quem?”.

Bom, dizem que não é saudável discutir com reacionário.

Mas a frustração persistiu.

Ora, bolas!

De qualquer forma, minha mente crédula me bombardeia incessantemente com perguntas incômodas:

— Há quem realmente deixe de trabalhar pela bolsa-família?

— Quanto paga esse benefício, atualmente? O salário mínimo? Certeza?

— Sério que tem gente que se satisfaz com o salário mínimo? Um salário mínimo para cinco, seis pessoas? Ou até mais?

— Se você, fazendeiro, ou cidadão classe-média, não encontra quem esteja disposto a fazer para você o trabalho penoso pelo tanto que você se propõe pagar, então o problema é da bolsa-família?

— E se eu defendesse que o problema é justamente a miséria que tipos como você se propõe pagar pelo trabalho que você não se anima a realizar? Isso quando paga, tantas são as notícias de trabalhadores reduzidos à condição análoga à de escravos — coincidentemente, fortemente concentrados no campo.

E aí. Vamos discutir por que não se encontram com facilidade trabalhadores braçais informais para as lides das fazendas? E ‘empregadas‘ domésticas, idem?

Se não está disposto, ó reacionário, aqui vai um conselho bem ‘nordestino‘: boca-de-siri, folgado!

Eleições. Blargh!

Eleições!

Eleições!

Caramba!

Que loucura!

Todo mundo com os nervos à flor da pele.

Os interesses manifestos, sem nenhuma dissimulação.

E as ideologias?

Bom… essas ficam meio que de lado. O que interessa é aparentar um perfil e um alinhamento que satisfaçam as fantasias do eleitor.

Agora, todos os candidatos melhorarão os índices da Educação. Sim, os índices.

Todos combaterão a violência. E a corrupção. E a miséria.

Mas…

Será que o discurso é compatível com o currículo?

Aliás, alguns cidadãos preferem vida pregressa, especialmente quando se trata de nossos representantes. Fazer o quê?

Numa análise bem rasa, eu vejo tantas contradições que, me atrevo a dizer, a proximidade do cinco de outubro causa depressão.

É claro, porém, que, uma vez que os cidadãos de bem (ou que se consideram como tal) não se habilitam, sobra espaço para os que têm estômago.

E a vida segue!

Para os avestruzes, e para os demais bípedes.

É isso.